Mostrando postagens com marcador Larine. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Larine. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de março de 2017

#6: Ratos - Gordon Reece





Oi, oi! Depois de um tempo de sumiço, hoje tem resenha nova, vem ver o que eu achei de Ratos:

[...] sempre existirão limites – fronteira que simplesmente não somos capazes de atravessar, questões que nos tocam tão profundamente que não podem ser compartilhadas. Talvez, pensei, aquilo que não conseguimos compartilhar com os outros seja o que define quem somos.
                                                             *****

Quando um gato entra na toca dos ratos, ele não vai embora deixando-os ilesos. Eu sabia como aquela história iria terminar. Ele mataria nós duas.

A primeira leitura do ano foi uma grata surpresa. Um thriller psicológico envolvente do começo ao fim. Ratos, de Gordon Reece, me conquistou pela narrativa fluida e, principalmente, pelos conflitos que as personagens principais passam, nos fazendo questionar sobre qual o limite do homem diante de situações extremas.
Ratos conta a história de Shelley e sua mãe, Elizabeth. Logo no início da leitura somos apresentadas ao “universo” oprimido que as duas vivem, cheias de medo do mundo, das pessoas e de como se impor diante deles. Elas são completamente passivas em tudo que fazem, submissas a níveis difíceis de ler sem causar incomodo.  Verdadeiras marionetes do mundo que as cerca, seguindo sem argumentar ou negar nada, mesmo que isso as prejudique profundamente.
A princípio, depois de nos familiarizarmos com a “condição’’ oprimida de Shelley, a leitura parece tratar somente sobre bullying e as possíveis consequências que podem deixar em uma pessoa. Estava enganada? Não inteiramente. O tema está intimamente ligado à futuras modificações que ocorrem nas duas personagens, principalmente em Shelley.
A primeira parte do livro apresenta as duas personagens acuadas acerca dos acontecidos com Shelley, e as marcas literalmente deixadas na garota vítima de bullying na escola. Somos inseridos aos problemas que a personagem principal enfrenta na escola e temos um breve conhecimento de quando tudo começou a mudar.

Tudo começou lentamente, com comentários irônicos de depreciativos que poderiam ser vistos como brincadeiras, mas que logo perderam qualquer vestígio de bom humor e mostraram ser o que realmente eram: palavras hostis e maldosas, ditas para machucas. Eu fiquei em choque. Depois de tantos anos de amizade, o fato de minhas amigas já não gostarem de mim me deixou surpreendida, desnorteada.

De melhores amigas a inimigas quase mortais. A evolução dos abusos se tornavam cada vez mais repugnantes e o tempo todo me perguntei como uma pessoa conseguia suportar tais agressões diariamente. Mas não esqueçam, os ratos simplesmente se escondem e não conseguem enfrentar o caçador.  Ela era um rato. Nada mais.
A incapacidade de falar, de pedir ajuda ou se defender simplesmente não faziam parte da personalidade de Shelley, sempre conformada com as situações que lhe impunham. Sofreu em silêncio por muito tempo, tendo como único refúgio um diário.

Além disso, contar à minha mãe ou à escola significaria confrontar minhas perseguidoras, e eu era completamente incapaz disso. Simplesmente não tinha essa força. Não tinha essa personalidade. Eu era um rato, não esqueça. Parecia-me mais natural não dizer nada, sofrer em silêncio, manter-me quieta e esperar não ser vista, e esgueirar-me pelos cantos à procura de um lugar seguro onde pudesse me esconder.
                                                            ******
Eu rabiscava inconscientemente a folha de papel enquanto revirava frases de despedida em minha mente, e quando olhei para a mesa, não consegui conter um sorriso amargo ao perceber o que eu havia desenhado. Era um rato. E ao redor de seu pescoço havia uma corda grossa.

A segunda parte, talvez a mais envolvente e eletrizante, ocorrem as principais reviravoltas da trama. Chega o momento da tão esperada mudança em ambas as personagens, embora tenha se dado de forma a ser questionada. Digo isso devido às ações e motivações que Shelley e Elizabeth tomaram, porém surpreendente lhes transformou em algo diferente. Isso causou um sentimento novo, um estado de espirito diferente, desconhecido até então em Shelley.
Não eram mais simples ratos. Não eram a caça. Se tornaram o caçador!

Quando olhei meu reflexo novamente, fiquei surpresa ao ver meus dentes brancos. Eu sorria abertamente. E, então, soube qual era aquela emoção destoante: era alegria.
                                                                    *****



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

#5: Por Lugares Incríveis - Jennifer Niven



Iaí pessoal, fazia um tempinho que não aparecia por aqui né? Mas voltei, e com novidades, sim, o blog tem uma colaboradora nova, Larine Brito e a resenha de hoje é dela, vejam o que ela achou de Por Lugares Incríveis:


Ser sugado para dentro de um buraco negro seria o jeito mais legal de morrer. Não há ninguém que tenha experienciado isso, e os cientistas não conseguem decidir se, depois de atingir o horizonte de eventos, a pessoa passaria semanas flutuando antes de ser despedaçada ou se viraria uma espécie de turbilhão de partículas e acabaria queimada viva. Fico pensando como seria se fôssemos engolidos. De repente, nada mais importaria. Nunca mais nos preocuparíamos com coisas do tipo aonde ir ou o que vai acontecer ou se vamos decepcionar alguém de novo. Tudo isso...simplesmente...desapareceria.

                                                              ******         
Um livro que toca profundamente, nos fazendo questionar sobre os conceitos que temos sobre vida, morte e amor. Por Lugares Incríveis, um livro que te faz refletir sobre o que somos e o que aparentamos ser. Um livro que te faz querer olhar para além das aparências ...seja ela qual for.
Por Lugares Incríveis, da autora americana Jennifer Niven, é mais um livro YA (Young Adult) que conquistou fãs ao apresentar Theodore Finch e Violet Markey, adolescentes diante de problemas nada fáceis.  
Depois de um grande trauma, a perda da irmã em um trágico acidente, Violet ainda não se recuperou emocionalmente e não conseguiu retomar a vida de antes. Ela se fechou num mundinho, e, apesar dos pais, amigos e professores relevarem muito sua atitude inflexível diante de tentativas de ajuda-la, rejeita a ideia de prosseguir a vida, enquanto sua irmã não tivera a mesma oportunidade. Além de ser a típica garota popular: linda, inteligente, líder de torcida, namorada do cara mais desejado da escola, um clichê que me incomodou bastante, principalmente no início da leitura, ela é muito mais. Seu amor a escrita foi bloqueado após a perda, e a o blog que compartilhava com a irmã, deixado para trás.
Mas tudo muda quando seu caminho cruza com Theodore Finch, em meio a uma situação nada comum. É o momento em que começamos a perceber o que virá...E isso não é bom.
Finch é um cara com muitas caras. Sim, temos muitos Finchs ao longo da leitura, são facetas diferentes quase a cada capítulo, e nos deparamos com um garoto de 17 anos cheio de porquês.
Theodore é “estranho” aos olhos de muitos, uma ABERRAÇÃO para a maioria, mas para alguém como Violet, um Theodore cheio de surpresas interessantes, cheio de conceitos interessantes, envolto a perspectivas interessantes, um cara que lhe mostrou um novo mundo e lhe resgatou do fundo do poço. Embora o mesmo não tenha acontecido a ele.
Durante a narrativa nos deparamos com um Finch desconhecido para a maioria, até mesmo para sua família. A cada linha nos envolvemos ainda mais nos conflitos que ele enfrenta, muitas vezes ilógico, mas outras, totalmente compreensível. Ele não se preocupa com o amanhã, somente com o agora, o “pra valer” que está em suas mãos. Ele é alegre, agitado, criativo, descolado; às vezes, triste, deprimido, solitário. Ele é muitos em um. Isso, nesse caso, repito, não é nada bom.
Como esperado, depois do caminho de Violet e Finch ser entrelaçado, algo a mais acontece. De “desconhecidos” ao plano de “mais que amigos”, essa é a parte fofa do livro, além de óbvia. Porém, tudo muda. Depois de Finch ser a válvula de escape para Violet, ajudando na superação de antigos temores e traumas, é a vez de Finch nos revelar, de fato, sua verdadeira essência. O choque toma conta do fabuloso Theodore Finch e, leitores mais desprevenidos, também sentem o mesmo: medo do que virá.

Sou defeituoso. Sou uma fraude. Sou impossível de amar.

A partir daí começa a parte mais intensa do livro. Falar demais poderia revelar muito a quem ainda pretende ler, mas é importante falar que a autora toca no que há de mais sensível em nós. Ela aborda um tema pouco discutido, embora seja algo digno de maiores preocupações e debates.
Confesso que demorou um pouco para me deixar cativar pela narrativa, mas não há como não se emocionar lendo esse livro. É um tipo de leitura que te faz pensar sobre muitas coisas ou como as coisas poderiam ser diferentes apenas se parássemos um pouco e olhássemos ao nosso redor, não apenas as aparências, mas além disso. As aparências podem enganar, um sorriso pode não ser um sorriso, ajudar alguém pode ser um pedido de ajuda e quando ela não vem, os resultados podem ser trágicos.

O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.


                                                  ******